Só tirei a carta aos 21 anos. Achava que, a partir do momento em que tivesse carta deixaria de andar à boleia para passar a dar boleia, o que para quem gosta de se preservar em vinha de alhos pode ser um problema. E na verdade foi isso que aconteceu… a parte do dar boleia e a parte do problema. Hoje tento seguir a máxima “se conduzir não beba”… tenha amigos que conduzam.
E tudo isto para dizer que, conduzir tornou-se um dos maiores prazeres que consigo ter sozinha. Se pudesse, todos os dias pegava no carro e, durante uma horinha, éramos só eu e ele. Ia por aí, sem destino. Porque nessas alturas eu sou tão eu. Posso não falar, não ouvir, não pensar. Posso pensar, falar, ouvir. Posso cantar e chorar e gritar e dançar. Às vezes sou tão ridícula que me envergonho de mim própria durante um ou dois segundos. Mas depois passa e é simplesmente o exorcizar de tudo o que vai de menos bom cá dentro.
Proporcionalmente, odeio dar boleia, principalmente se for uma viagem mais longa e for com alguém com quem não tenha uma extrema cumplicidade. Senão vejamos, vamos ali duas pessoas, sem muito em comum, sem poder saltar do carro em andamento se a coisa se tornar demasiado dolorosa. É aquela musica que passa e não podemos aumentar o som e soltar a franga, são aqueles silêncios tao constrangedores que nos forçam a iniciar conversas sobre e tempo a cada cinco minutos. Depois uma pessoa quer conversar e a outra não, uma pessoa tem frio e a outra calor, enfim…
Se a outra pessoa for o meu avô, então a coisa ganha contornos ainda mais perturbadores. O meu avô não tem carta mas acha que conduz melhor que ninguém e portanto pode dar palpites sobre a minha condução e a de qualquer automóvel que se cruza connosco. É aquela pessoa que nunca pode ir atrás, que leva o braço pendurado naquele suporte acima do vidro e que se estiver calado dez segundos devo preocupar-me.
Penso que o meu carro devia ter só um lugar (até eu poder levar alguém a quem goste tanto de dar boleia como ir sozinha). E lá ia eu, no meu mundo, a pular e a avançar como uma bola colorida.
Claro que, ao preço que está a gasolina, andar à boleia vai virar moda. Vão fazer-se arranjinhos na escola e no trabalho para levar o carro cheio e dividir a gasolina, e os veículos mais irão parecer autocarros comunitários.
Da minha parte, temo que o meu carro passe mais tempo parado que outra coisa e só não ando mais de bicicleta porque a furo sempre que faço mais de dois quilómetros com ela.
Mas quando o país e o mundo não estão para passeios, é tão bom às vezes ir por aí…
2 comentários:
Maria Antónia...revi-me tnt no teu texto!!! :)
Tirando, se calhar, a parte que não me importo de dar boleia e não beber para que os outros o possam fazer!
Mas adoro conduzir sozinha e por aí...e sim, se pudesse também o faria todos os dias um bocadinho!
Keep on! :)
CT
já tentei comentar aqui 3 X ... desisti... não me apetece escrever tudo outra X...
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